A constatação faz parte do módulo turismo, da Pesquisa Nacional por Amostra de DomicĂlios ContĂnua (Pnad ContĂnua), divulgado nesta sexta-feira (13) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica (IBGE).
"Em 2019, foi feito somente no Ășltimo trimestre, enquanto que nos outros anos, a pesquisa aconteceu ao longo de todo o ano", explica o analista William Kratochwill.
"Isso pode trazer variações devido a sazonalidades. Pegando só o Ășltimo trimestre de 2019, é natural que haja um viés do perĂodo do ano", justifica o analista, acrescentando que em 2022, o convĂȘnio não vigorou, e a pesquisa não foi realizada.
Em 2020, ano em que começou a pandemia, forçando medidas de isolamento, lockdowns e interrupção de vĂĄrias atividades econômicas, os brasileiros gastaram R$ 12,6 bilhões com viagens nacionais. No ano seguinte, o montante caiu 10,8%, estacionando em R$ 11,3 bilhões, antes de saltar 78,6% e superar R$ 20 bilhões em 2023.
Oscilação parecida aconteceu com o nĂșmero de viagens realizadas. Em 2020, os brasileiros realizaram 13,6 milhões de viagens. No ano seguinte, a pesquisa registrou queda de 9,6%, 12,3 milhões de viagens. JĂĄ em 2023, esse nĂșmero aumentou 71,5% e chegando a 21,1 milhões de viagens.
Ao se analisar a proporção de domicĂlios que tiveram algum morador fazendo ao menos uma viagem, também é possĂvel observar uma queda seguida por recuperação. Em 2020, dos 71 milhões de domicĂlios existentes à época, em 9,9 milhões deles, ao menos uma pessoa viajou (13,9% do total).
Em 2021, a proporção caiu para 12,7%, ou seja, dos 71,5 milhões de lares brasileiros, houve algum viajante em pelo menos 9,1 milhões deles.
JĂĄ em 2023, a proporção subiu para 19,8%, com pelo menos uma pessoa viajando em 15,3 milhões dos 77,4 milhões de lares existentes. O aumento proporcional de 2021 para 2023 foi de 68,5%.
A pesquisa mostra que dos domicĂlios que tiveram ao menos um viajante, 73,7% fizeram uma viagem no ano; e 4,1% viajaram pelo menos quatro vezes.
De acordo com o IBGE, em 2023, 79,7% do total de domicĂlios brasileiros eram formados por famĂlias com rendimento mensal per capita (por pessoa) menor que dois salĂĄrios mĂnimos. No entanto, no universo de lares que tiveram ao menos um viajante, a proporção dos que recebiam menos de dois salĂĄrios mĂnimos era 62,9%. Ou seja, os lares dentro dessa faixa de renda são sub-representados quando o assunto é viagem.
Também é possĂvel perceber a relação entre renda e viagem ao analisar as respostas dada pelos entrevistados sobre os motivos para não realizar viagens.
O principal é não ter dinheiro, opção apontada por 40,1% dos entrevistados. Ao se debruçar sobre o nĂșmero, o estudo identificou que entre as pessoas com renda de menos de meio salĂĄrio mĂnimo, o percentual sobre para 55,4%. Para os que recebem entre meio e um salĂĄrio mĂnimo, a proporção cai para 45,7%. JĂĄ no universo de quem ganha quatro ou mais salĂĄrios mĂnimos, apenas 12,1% justificaram a falta de dinheiro.
"HĂĄ uma correlação direta entre o rendimento domiciliar per capita e a ocorrĂȘncia de viagens, com domicĂlios de maior renda realizando mais viagens", afirma o IBGE.
No total dos entrevistados, o segundo motivo para não viajar foi não ter necessidade (19,1%); e a terceira razão mais citada, não ter tempo (17,8%).
A maioria das viagens em 2023 teve o próprio paĂs como destino. No ano passado, das 20,4 milhões de viagens realizadas 97% foram nacionais. Apenas 641 mil trajetos cruzaram as fronteiras do Brasil. JĂĄ em 2021, apenas 0,7% das viagens (90 mil) foram internacionais.
"O resultado mostra o efeito da pandemia. O mundo se fechou", aponta Kratochwill.
Ao observar as viagens domésticas, a pesquisa mostra que o destino mais procurado é o Sudeste (43,4%), seguido pelo Nordeste (25,3%), Sul (17,4%), Centro-Oeste (7,5%) e Norte (6,4%).
Sob a ótica da origem, o estudo revela que das viagens saĂdas de estados do Nordeste, 89,3% tĂȘm como destino a própria região. Norte (81,4%), Sudeste (82,9%) e Sul (83,1%) também tĂȘm proporções de viagens para a própria região acima de 80%. No Centro-Oeste o percentual é de 61,5%.
A Pnad apurou que, em 2023, pouco mais da metade (52,6%) das viagens realizadas com pernoite foram consideradas curtas, variando de uma a cinco pernoites em 2023.
"São viagens menores que podem ser conjugadas com fins de semana e feriados colados nos fins de semana", exemplifica Kratochwill.
Uma em cada quatro viagens (24,3%) sequer teve pernoite. Apenas 5,5% delas contaram com mais de 16 dias fora de casa.
Em 2023, mais da metade (51,1%) dos deslocamentos foram feitos com carro particular ou de empresa. O segundo meio de transporte foi o avião (13,7%), ligeiramente à frente de ônibus de linha (13,3%). No primeiro ano da pandemia, em 2020, a proporção de viagens de avião era de 57,5%.
Em 2023, 85,7% das viagens (18,1 milhões) foram por questões pessoais; enquanto 14,3% (3 milhões), profissionais.
Dentre as viagens profissionais, 82,4% eram destinadas a trabalho ou negócios. O analista William Kratochwill destaca o aumento expressivo de deslocamentos para eventos e cursos para desenvolvimento profissional, que saltaram de 4,9% do total de viagens profissionais em 2020 para 11,6% em 2023.
"Mesmo com o avanço da tecnologia [meios de videoconferĂȘncia] ainda hĂĄ demanda por esse tipo de viagem, que se mostra bastante forte", assinala.
JĂĄ entre os principais motivos para viagens pessoais, o pesquisador identificou que houve uma inversão entre lazer e "visita ou evento de familiares e amigos".
Em 2020, 38,7% indicavam viagem para os encontros, e 33% para lazer. Em 2023, esses percentuais passaram para 33,1% e 38,7%, respectivamente. O analista enxerga relação direta com a pandemia nessa inversão.
"A motivação antes [na pandemia] era estar com a famĂlia e, depois que acabou o problema, as pessoas voltaram a buscar o lazer".
Observando especificamente as viagens pessoais por motivo de lazer, a Pnad revela que a motivação "sol e praia" perdeu participação, caindo de 55,6% em 2020 para 46,2% em 2023. Por outro lado, "cultura e gastronomia" ganhou relevância, indo de 15,5% para 21,5%, no mesmo perĂodo de avaliação.
Um destaque ressaltado pelo IBGE é que a motivação pessoal "tratamento de saĂșde ou consulta médica" apresentou constante expansão mesmo em anos de pandemia. Em 2020, era 17,3%; em 2021, 19,6%; e em 2023, 19,8%.
"Foi o Ășnico motivo de viagem que cresceu [em todos os anos]. É um serviço inelĂĄstico [a demanda varia pouco, independentemente de cenĂĄrios], as pessoas não podem deixar de fazer tratamento", explica.
A casa de amigo ou parente é a principal forma de hospedagem de brasileiros que viajam. Em 2023, a modalidade respondeu por 41,8% das estadias. Em seguida aparece a opção outros (26,2%), que inclui alternativas como albergue, hostel ou camping.
Hotel, resort ou flat responderam por 18,1% das hospedagens. Imóvel por temporada - que inclui reservas negociada por aplicativos, como Airbnb - foram 4,8%.
Fonte: AgĂȘncia Brasil